Memórias de Cora Coralina
Exposição traz vida e obra da poetisa que falava das coisas simples e de sua origem na cidade de Goiás Velho
Carolina Rossini
"Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos"
(Das pedras - Cora Coralina)
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Talento na cozinha: antes de se
tornar escritora, Cora era doceira |
"Estou no melhor tempo da minha vida. Um tempo de paz, tranqüilidade...". É com estas palavras que Cora Coralina recebe os visitantes que vão ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e visitam a mostra
Cora Coralina: Coração do Brasil, no segundo andar do prédio localizado na Estação da Luz. Um grande telão exibe o rosto de uma senhora que conta causos de sua vida e dá conselhos àqueles que passam pelos corredores do museu.
É Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a goiana que se tornou grande autora da literatura brasileira com suas palavras simples que faziam - e fazem até hoje - referência à sua infância, juventude e vida adulta. "Era um desejo nosso que só a Cora falasse dela. Ela pode falar por si própria", diz à CULT a curadora da mostra que faz parte das comemorações dos 120 anos do nascimento da escritora, Júlia Peregrino.
"Noventa e oito anos atrás, Cora desceu na Estação da Luz com seu marido, para tentar a vida em São Paulo. Hoje ela está na Luz em grande estilo. Mal poderia imaginar!", conta Peregrino.
Foi quando outro grande, seu amigo Carlos Drummond de Andrade, conheceu a poesia de Cora Coralina que seu talento chegou para toda a população. "Admiro e amo você como a alguém que vive em estado de graça com a poesia", declarou o autor em uma das cartas enviadas à amiga. Em 1965, Cora teve seu primeiro livro publicado,
Poemas dos becos de Goiás, aos 75 anos de idade.
Para passar ao público a sensação de estar nos "becos de Goiás", foram montados três painéis que contêm imagens da poetisa, de sua casa, suas roupas, suas panelas de doce, a própria cozinhando, escrevendo ou apenas parada olhando diretamente para quem a observa.
"Queríamos mostrar o universo dela e seu processo de criação. Por isso os detalhes. Eles levam o público a uma viagem pela cidade de Cora", explica a curadora, que contou com a colaboração dos cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara.
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Painel com imagens do cotidiano da poetisa:
riqueza nos detalhes |
Assim como a poesia da goiana, a mostra é simples e comove o público. Livros de receita, fotografias e poesias se misturam aos trechos de muitas das obras da autora. Tudo embalado pela voz e imagem da própria, em vídeos cedidos pelas redes de televisão Cultura e Brasil, nos quais se pode observar Cora falando, entre muitas coisas, de sua infância: "Eu me refugiava nas histórias da carochinha. Era a Bela Adormecida, a Maria Borralheira, vivia com os sete anões...".
No ano de 1983 lançou seu livro
Vintém de cobre, considerado pelo admirador Drummond como uma "moeda de ouro". A doceira que se tornou poetisa conseguiu relatar seu Estado, seus costumes e sua vida de modo claro e bonito, mesmo sem ter completado seus estudos, e se tornou uma das mulheres mais reconhecidas da literatura brasileira.
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Amizade de poetas: carta enviada por Drummond à
Cora na qual ele fala de sua admiração pela poetisa |
Para se despedir dos que a visitaram, a autora revela o motivo da escolha de seu pseudônimo: "Meu nome era muito grande e também não queria ter uma xará. Pensei em Cora, mas achei pouco. Então juntei com Coralina. Ana poderia ser a filha de qualquer um. Cora Coralina, boa ou ruim, só tem uma".
Cora Coralina: Coração do Brasil
Onde: Museu da Língua Portuguesa - Pça. Luz, s/n.º, São Paulo/SP. Tel: 3326-0775
Quando: Até 13/12, das 10h-17h
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